quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Fogos

O assunto é delicado! E hesito em escrever sobre ele, até porque -felizmente- nunca passei por situação semelhante. Na verdade nem tenho opiniões formadas sobre esta matéria, como não tenho sobre tantas outras coisas...vivendo e aprendendo! A escrita serve-me para alinhar ideias e partilhá-las com quem tiver paciência para ler estas linhas. Considerem-nas apenas um desabafo e não mais que isso!

A verdade é que, não retirando importância ao fogo que consome floresta, ameaça povoações e muda radicalmente a vida de tantos para pior, o que verdadeiramente me aflige no meio disto tudo:
- é o aproveitamento partidário que é feito para denegrir quem está no poder (sejam eles quem forem); 
- é o "chico-espertismo" que tem sempre opinião sobre tudo; 
- é o "treinador de bancada" que faria sempre melhor que o treinador em campo; 
- é o jornalismo de dedo em riste, sempre à procura de culpados (sejam eles os bombeiros, a proteção civil, o governo, as autoridades militares, as autarquias...) e de escândalos para explorar no meio deste "negócio" que é o fogo. O jornalismo pode e deve contar histórias, pode e deve dar voz às populações, pode e deve esclarecer. Mas não deve inventar histórias e questões onde elas não existam, nem potenciar comportamentos de instabilidade e revolta que nada acrescentam...não há necessidade de "mais achas para a fogueira!"
- é a falta de sensibilidade e respeito por aqueles (populações, bombeiros, militares, policiais, voluntários...)que sofrem as consequências no terreno;
- é a força da natureza e a forma como tantas vezes a ignoramos, descurando o cuidado e a atenção que lhe devemos. Com a natureza não se brinca!

Não tenho soluções para o problema dos fogos! Ouço muitas opiniões e parece-me que este é um problema que vai levar ainda muito tempo a resolver. Mas há dois ou três aspetos que me parecem evidentes:
- independentemente da prevenção em geral (limpeza das matas, do tipo de árvore escolhida para plantar, das faixas de segurança, etc, etc...),há um factor incontornável que deve ser tido em conta e levado muito a sério: as alterações climáticas a que assistimos não podem ser ignoradas. Ontem já era tarde para tentarmos inverter comportamentos que as potenciam. E este não é um fenómeno português. Vejam-se os casos da Califórnia, da Grécia, da Suécia ou de Espanha (só para referir os mais recentes);

- posso agora perguntar: e é o facto do tempo estar particularmente quente que ateia um fogo? Diz-me  o senso comum que não...mas os media parecem dizer que sim com todos os seus alertas laranja e vermelho, martelando constantemente a ideia de que a subida da temperatura implica fogo à vista! Quando ouço estes alertas insistentemente repetidos penso imediatamente: lá estão eles a dar ideias a pirómanos e a justificar-lhes a ação;

- o terceiro aspeto é exatamente esse: o fogo posto! Sabemos que a grande maioria dos fogos começa assim! É a natureza humana no seu pior: seja por patologia, seja por interesses económicos (que também sabemos, nesta indústria são pródigos). Que fazer? Penas mais pesadas para os incendiários? Vigilância mais apertada das florestas?..;

- se é verdade que não é o facto de a temperatura estar elevada um factor só por si suficiente para originar um foco de incêndio, sabemos que condições climatéricas que agreguem calor, pouco humidade atmosférica e ventos fortes são o melhor rastilho para potenciar reacendimentos e dificultar o combate às chamas;

- por último, uma palavra para os meios -humanos e materiais- e para as estratégias. Aflige-me o constante questionamento (sobretudo nos media) sobre a forma como as coisas estão a ser feitas no terreno. Por lá estão pessoas que, com certeza, tentam fazer o melhor que podem e sabem com os meios que têm. Em grande medida, falamos de voluntários (há que não esquecer). Haverá falta de coordenação? Haverá falta de meios?  Sim...porventura serão insuficientes! Mas também sabemos que no teatro de operações tudo pode mudar em poucos minutos e bem haja quem tem a capacidade de manter a cabeça fria e o discernimento suficientes para, no meio de todos os imponderáveis, decidir qual a melhor estratégia para combater o fogo. 
Não me parece, de todo, que o constante inquisição por parte dos media e o aproveitamento político destas questões faça algo em prol da eficácia e eficiência no terreno. Perdoem-me os que têm um espírito crítico mais aguçado ou interventivo...mas eu não consigo, nem quero! A verdade é que este não é um problema meramente nacional. Mesmo quem tem meios, muitos anos de experiência e milhares de profissionais (não falamos de voluntários) tem imensas dificuldades. Veja-se,mais uma vez, o exemplo da Califórnia.

Para quem não tem opinião formada, nem soluções para o problema, pode parecer que já escrevi demais. 
Falta-me uma palavra de reconhecimento e gratidão para todos os que de forma voluntária ou profissional dão o melhor de si nestas circunstâncias dramáticas e uma palavra de coragem e esperança para todos aqueles que, direta ou indiretamente, sofrem as consequências desta tragédia.

E deixo-vos ainda com a sugestão de leitura deste artigo (que vai de encontro ao jornalismo que gosto de ler) de Ricardo J. Rodrigues, do DN, que no parágrafo final diz isto: 

"Não se resolve num ano décadas de abandono da floresta", contava o agente de uma equipa de reconhecimento e avaliação, preocupado com a velocidade de avanço das labaredas. "As matas têm camadas e camadas de matéria combustível, estão cheias de eucaliptos, as temperaturas estão cada vez mais extremas e os níveis de humidade estão assustadoramente baixos."
Esta noite há centenas de homens exaustos a travarem um combate que tarda em ver vitória. E isso pode muito bem ser uma lição. A humanidade bem pode prevenir-se contra os estragos, mas nunca conseguirá dominar totalmente a Natureza." 

(...ainda que pouco otimista, parece-me a forma certa para concluir.)

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