segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Santo Natal

Em dezembro de 2019 alguém ofertou ao Papa Francisco a imagem deste presépio especial, intitulado "Deixem a mãe descansar".
Para além do natural descanso de Nossa Senhora, acabada de dar à luz, ressalta a figura de São José, de ar encantado, cuidando do Menino. 
 
Em dezembro de 2020, o Papa Francisco anunciou um ano dedicado a São José, em toda a Igreja. Não sabemos até que ponto este presépio inspirou esta iniciativa, anunciada como forma de também assinalar o 150.º aniversário da declaração de São José como padroeiro da Igreja universal, evocando em particular migrantes e trabalhadores...condições vividas por José, para além da de pai adotivo de Jesus, companheiro atento e amoroso de Maria, homem de sonhos, de esperança e de fé em Deus.
Todas estas características de São José nos interpelam ainda hoje!
 
Por isso, neste dezembro de 2021, é com este presépio que vos desejo a todos um SANTO NATAL e um 2022 em que não faltem os sonhos, a esperança, a fé...mas também o trabalho e a atenção aos outros (a todos, os mais próximos e os que estão distantes...os que gostamos muito e aqueles de quem é mais difícil gostar). Tudo sempre com muito AMOR!
Foi para nos ensinar a amar assim que Deus se fez homem como nós!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Deusa do Mar...

No passado sábado à noite,assisti a um belo concerto do Alberto Leitão. Ora ali aos 16 minutos de concerto -mais coisa, menos coisa- o Alberto cantou a ”Deusa do mar” e eu, num flashback, recuei vinte e tal anos…concretamente até 1998!

É que nesse ano, um dos meus hobbies era pintar uns quadros a óleo, uma pintura muito naif…e também experimentava fazer umas ilustrações no Paint (imagine-se)!

O que é certo é que, já não sei “porque tralhas e malhas”, o Alberto convidou-me para fazer uma ilustração para cada um dos quatro temas do seu cd da altura, “Há um tempo”. 

E aceite o convite, como as fotos anexas atestam, o tema “Deusa do Mar” teve direito a uma pintura a óleo e os restantes a ‘ilustrações gráficas’.*


Ora ontem, quando fui buscar a tela original para a fotografar, apercebi-me que tinha estado exposta, mas já não me recordava onde! Ao rebuscar na minha agenda de 1998 (sim, nessa altura era menina de agenda anual) encontrei a resposta: a 23 de abril de 1998, inaugurei de facto a minha primeira -e até à data, última- exposição de pintura, muitíssimo bem acompanhada pelo meu amigo Nuno Alexandre Franco…esse sim um artista, já com várias exposições no currículo! 

Na altura organizada pela ALA - Associação Local de Artistas, a que ambos pertencíamos, a exposição intitulada  “Águas de Luar” esteve patente no mítico Bar nº 1 e um dos quadros expostos era precisamente o “Deusa do Mar”! 
E não é que arquivado na agenda estava também o cartaz da dita exposição
Hoje até dá vontade de rir, pelo amadorismo da coisa…tudo muito “caseiro”! Mas, em abono da verdade, é importante não esquecer que já se passaram quase 25 anos, com tudo o que isso significou de evolução tecnológica e gráfica…

E, sim, as minhas agendas das décadas de 80, 90 e princípios de 2000 são mini-arquivos, com bilhetes de cinema, cartazes, panfletos e outros. E ainda bem que assim é! Permitem-me recordar, reviver e registar para memória futura (como aqui acabei de fazer) uma das épocas mais criativas e felizes da minha vida…e das que, por isso, me deixaram maior saudade! 
Posso confessar-vos que é um dos meus propósitos para 2022: recuperar o hábito da agenda e do mini-arquivo associado! Para uma nostálgica como eu, é coisa que ainda me vai proporcionar belos momentos daqui a uns anos, ou a umas décadas...à rapidez com que isto passa!
Assim Deus queira!
 
*Já não me recordo se fiz a ilustração com base na pintura ou o contrário, visto que diferem em alguns pormenores...

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Há músicas (muito) boas de ouvir! CLXV

Jesus Christ Superstar (Jesus Cristo Superstar) é uma ópera rock composta por Andrew Lloyd Webber e Tim Rice, em 1970.  Em 1971 foi levada à cena na Broadway e desde então tem sido encenada um pouco por todo o mundo. Portugal não foi exceção e Filipe La Féria apresentou a sua versão no Politeama, em 2007. 

Mas foi talvez a versão cinematográfica, de 1973, que lhe deu projeção mundial.  

Recentemente, deu origem a Jesus Christ Superstar Live in Concert, uma produção de 2018, em que John Legend é Jesus Cristo e onde Sara Bareilles é Maria Madalena, interpretando uma das mais emblemáticas faixas musicais do álbum:  I Don’t Know How to Love Him”

É a minha escolha musical de hoje...

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Porto sentido

Há 7 anos,  a Rádio Comercial lançou esta versão de "Lisboa, menina e moça" por ocasião da atribuição do Grammy a Carlos do Carmo.

Agora foi a vez de Porto Sentido, numa homenagem a Rui Veloso, pelos seus 40 anos de carreira.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Mar

 Neste Dia Nacional do Mar, um poema de Sophia:


Mar

I

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua
.

 

 II

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

 

in Poesia, 1944

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

46

 

"Sentir o cair das folhas 

como uma advertência íntima

O primeiro passo para um encontro

Um regresso ao coração. "

in Pétalas negras ardem nos meus olhos, Assírio &Alvim, 2007

 

 

Luís Falcão

(05.11.1975 - 22.06.2015)

 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Há músicas (muito) boas de ouvir! CLXIV

Já tenho escrito por aqui sobre o quanto aprecio as parcerias que se estabelecem entre os músicos da nossa praça, seja ao nível da interpretação, seja na partilha de letras ou melodias...é bonito de ver e ouvir, e resulta, normalmente, em mais valias para todos. É o caso deste "Onde vais", tema recente do repertório de Bárbara Bandeira, interpretado a meias com Carminho.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Há músicas (muito) boas de ouvir! CLXIII

Esta foi uma das tocadas no concerto do passado sábado, de que vos falei na publicação anterior. Pertence ao alinhamento do álbum "Voz e Violão" e tem letra de João Monge e música de António Zambujo. Segundo o próprio, é pretensão de ambos "fazer em breve um disco, todo com músicas minhas e letras dele, sempre no papel de uma mulher, a falar de coisas que continuam a acontecer hoje em dia, com a malta a assobiar para o lado. O assédio sexual no trabalho, a violência doméstica, a escravidão da imagem..."

E é precisamente sobre esta última questão que nos fala a música que hoje partilho.

 Chama-se "Sinais"!

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Zambujo, voz e violão...

Hoje escrevo para vos falar daquele concerto que já julgava perdido (por ter a lotação esgotada quando quis comprar bilhete) mas que, com o aliviar das restrições COVID a 1 de outubro, tive a oportunidade de viver: ANTÓNIO ZAMBUJO, VOZ E VIOLÃO! 

E foi tão bom que não posso deixar de lhe dedicar por aqui umas palavrinhas!

Antes de mais, dizer que, apesar de ser fã e seguir atentamente o seu percurso artístico, nunca tinha visto António Zambujo ao vivo a solo (apenas com Miguel Araújo, numa das míticas 28 noites dos Coliseus) e, como é óbvio, o artista não desiludiu...apesar de estar mesmo sozinho em palco, contando apenas com a sua VOZ e com o seu VIOLÃO! E aqui um aparte para constatar que a voz de Zambujo é por si só um instrumento que vale por muitos, com as suas várias cambiantes melódicas...Como se isso não bastasse, o próprio repertório é feito de "histórias cantadas". Facilmente nos deixamos levar no enredo e imaginamos tudo aquilo a acontecer. E o 'tudo' pode ser romântico, hilariante, nostálgico, dramático, quotidiano...

Depois realçar o SILÊNCIO...aquele que as 600 pessoas presentes na sala fizeram questão de guardar nos momentos de interpretação. Exceção feita a alguns hits, como "Pica do 7", "Nem às paredes confesso" ou "Lambreta", em que a participação do público não se fez esperar, impressionou-me o silêncio reinante na sala!

Em terceiro, mencionar o único convidado da noite: Diogo, o filho mais velho de Zambujo, que neste último álbum assina a composição e partilha a interpretação de uma das canções. Apesar da timidez visível,  a sua presença em palco, para interpretar três temas, surpreendeu pelo positiva!

Por último, referir a riqueza musical deste espetáculo que, sendo maioritariamente promocional de "Voz e Violão" , não descurou outros temas interpretados por Zambujo ao longo da sua carreira: alguns da sua discografia pessoal, outros de músicos que admira, abarcando vários géneros musicais.  

Exemplo disso, os fados "Foi Deus", de Amália (com que abriu o espetáculo) e "A Rosinha dos limões", de Max (de quem é fã confesso); os temas latinos, "Cucurrucucu Paloma",canção mexicana popularizada por Caetano Veloso, "Valsinha" de Chico Buarque ou "No rancho fundo", samba canção que se tornou icónico na voz da dupla sertaneja Chitãozinho &Xororó; e ainda uma moda alentejana, o cante com que tudo começou. 

Foi um belíssimo concerto, no qual reforcei uma certeza: se há algo - para além do AMOR- que nos salva nesta vida, que torna os nossos dias mais belos, é a ARTE...e a MÚSICA, em particular!

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Boa música!

A notícia é de anteontem: três dos melhores intérpretes portugueses dos nossos dias estão nomeados para os Grammy Latinos. São eles: 

- SARA CORREIA, para melhor álbum de música de raízes em língua portuguesa, com “DO CORAÇÃO”; 

- SALVADOR SOBRAL, com "BPM", na categoria de melhor engenharia de som;                         

e CAROLINA DESLANDES para melhor vídeo em versão longa com Mulher, curta-metragem que protagonizou e lançou juntamente com o EP com o mesmo título.  

A notícia não é de espantar tendo em conta o atual panorama 
musical português na sua qualidade, diversidade, performance e divulgação global.

E se há coisa que tem contribuído para isso e que (entre outras) eu admiro nesta nova geração de músicos são as parcerias que estabelecem, entre eles e com os de outras gerações e mesmo entre estilos musicais. Muita coisa boa tem surgido destas partilhas, algumas das quais tenho referido por aqui. 

Esta ainda não tinha sido escolhida mas, como reúne duas das nomeadas, aqui fica "Porquê do Fado" , com letra e música de Carolina Deslandes para a voz de Sara Correia. Deleitem-se!


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Existir

 "Enquanto houver estrada p'ra andar a gente vai continuar..." 

(Jorge Palma)

Sirvo-me deste verso de uma das músicas que mais gosto, e desta imagem captada hoje, para agradecer todas as mensagens de carinho recebidas nos últimos dias. 

Quem me conhece sabe o quanto gosto de celebrar os meus anos de vida! E este ano foram 47, invertendo o 74 que me viu nascer!*

Também gosto de ter nascido em meados de setembro, o mês de todos os recomeços...nestes dias em que o verão se despede (mas ainda se faz sentir)...e em que o outono vai dando sinais de estar quase aí! Gosto desta transição entre as minhas estações preferidas: este misto entre a luz, o calor e a liberdade do verão e o aconchego das cores quentes e dos rituais do outono. Deste tempo de colheita, acalmia e renovação!

Que a vida continue com o melhor que tem para nos oferecer e que lhe saibamos reconhecer o encanto...neste espanto de existir que tantas vezes esquecemos de sentir! É o que desejo para mim e para todos os que me leem por aqui.

 *picuinhices de quem, sendo de letras, adora curiosidades numéricas!


sábado, 11 de setembro de 2021

11 de setembro #911

Ainda nos parece impossível que tenha sido há 20 anos!!!...por tudo o que mudou desde então...e por tudo o que não mudou!😔

FOTOGRAFIA DO 11 DE SETEMBRO
"Pularam dos andares em chamas –
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles –
descrever este vôo
e não acrescentar o último verso."

(Wislawa Szymborska, Prémio Nobel da Literatura, em 1996)

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Estado de Alma

Gerardo Rodrigues apresentou ontem o seu segundo álbum de originais,

"Estado de Alma"

Tive o privilégio de assistir ao vivo ao concerto que aqui vos deixo e só vos posso dizer que vale muito a pena ouvi-lo ;)

A música é uma arte extraordinária e, seguramente, a linguagem mais universal. E eu fico sempre maravilhada com a capacidade de quem compõe e interpreta...e o Gerardo fá-lo muitíssimo bem: com alma, sensibilidade...a raiar o génio nalgumas composições, como é o caso de "À deriva" sobre a qual já vos tinha falado aqui e que integra este trabalho.

Parabéns também a todos os que tornaram possível este livestream: os músicos que acompanham o Gerardo e todos os técnicos da produção (luz, som, vídeo, management)!

Espero que o vosso estado de alma também beneficie com a audição destes 12 temas :) E, caso queiram ouvi-los ao vivo, na imagem estão as datas dos próximos concertos aqui na região.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Há músicas (muito) boas de ouvir! CLXII

Ouvi ontem pela primeira vez e foi paixão à primeira audição...não sei se pelo embalo, se pela simplicidade...é muito boa de ouvir: Nena e as suas "Portas do Sol"!

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Marcelo

Conheci-o em maio de 2005, quando tive oportunidade de  viver esta experiência.

Foi a pessoa que mais acompanhou o grupo e, não tenho dúvidas, que mais nos marcou a todos pela positiva: o seu sentido de humor, a sua generosidade, a sua gentileza, a sua boa disposição...

Visitámos o Rio de Janeiro num domingo, dia da mãe, porque ele se disponibilizou a ir connosco...ainda que fora do programa que era suposto cumprirmos!

Tivemos uma empatia imediata, como se nos conhecêssemos há anos (e não há algumas horas apenas) e foi de tal forma que ao longo destes 16 anos nunca perdemos o contacto. 

Receber ontem a notícia da sua morte abalou-me (abalou-nos) profundamente...por tudo o que acima foi dito, pelo inesperado da partida, pelas circunstâncias, por tudo aquilo que ainda podia viver...porque o Marcelo era uma pessoa "do bem" - como tantos fizeram questão de reforçar nas condolências- e a morte parece-nos sempre mais injusta quando é assim! Há quem diga que "Deus leva os que mais ama!"...

"Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós!", disse Antoine de Saint-Éxupery, e acredito que esta frase fez todo o sentido na vida do Marcelo e de todos aqueles que cruzaram o seu caminho a determinada altura. Porque há pessoas assim: que "ficam na história da gente" pelos melhores motivos! 

A sua última publicação no FB foi a propósito do dia dos amigos. Não tenho quaisquer dúvidas que hoje, espalhados por todo o mundo, há amigos que choram a sua partida...ainda assim querendo acreditar que, se partiu, terá sido para um lugar melhor ou porque outra missão maior o aguarda! Que assim seja!

 À família - sobretudo aos pais e à irmã- que tanto amava, deixo os meus sentimentos...

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

O cantinho do Zeca

Zeca Afonso teria feito 92 anos na passada segunda-feira, 2 de agosto. 

A RTP decidiu homenageá-lo, nessa noite, com a transmissão do documentário "Traz outro amigo também" e com o concerto "O cantinho do Zeca".  

E se vale a pena ver o primeiro - até para conhecer um pouco melhor o músico e a pessoa, pelas suas próprias palavras -  vale muito a pena assistir ao segundo! Podem fazê-lo aqui.

De facto, quando a música é intemporal  e de qualidade é sempre boa de ouvir...sobretudo quando é vocal e musicalmente interpretada com virtuosismo e alma. 

Foi o que senti ao ouvir este
Parabéns ao AGIR pelos (maravilhosos) arranjos e pela direção artística do espetáculo e a todos os intervenientes pelos seus contributos neste belo momento!

Vão lá ver e ouvir e depois digam-me o que acharam ;)



quarta-feira, 21 de julho de 2021

O teu abraço

Joaquim Pessoa é um dos poetas que (re)descobri  nos últimos anos. 

Tem textos lindíssimos, alguns até musicados, como é o caso de "Amélia dos olhos doces" interpretado por Carlos Mendes.  

Hoje deixo-vos com este poema seu
intitulado "O TEU ABRAÇO"...

 

 "Nada como o teu abraço, 

esse sorriso que permanece brilhando nos meus músculos

com a luz da fogueira dos afectos 

e o fascínio singular que têm as coisas íntimas, 

deslumbramento silencioso entre a respiração e a música.

O teu abraço é o início do mundo e, 

ainda que a tua boca me nomeie e me perturbe,

é contra o meu peito que te sinto minha,

porque são os meus braços ansiosos

que melhor te reconhecem."

 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Rogério

Meu querido amigo...

a notícia da tua partida chegou-me a meio da manhã de terça-feira, inesperada apesar de expectável! 

Naquele dia não consegui alinhar os meus sentimentos para escrever umas linhas que te fizessem jus...e fiquei a dever-te estas palavras.

Sabia-te muito doente, mas a verdade é que -sobretudo quando toca àquelas pessoas de quem gostamos muito-acreditamos sempre até à última hora que o diagnóstico possa ser reversível ou, pelo menos, que o fim possa ser adiado o mais possível!

Não foi assim contigo e, no dia do teu funeral, houve quem (para me consolar) lembrasse que talvez tivesse sido melhor assim...sem mais sofrimento, despediste-te da vida durante o sono.  

Nos 65 anos de vida que te couberam em sorte não andaste, porém, "a dormir". Prova disso é todo o legado que deixas, todos os cargos e missões que abraçaste ao longo da vida e que fazem do teu currículo um rol impressionante de experiências e competências...e sobre essas não vou falar, porque há  já quem o tenha feito melhor do que eu. Não duvido que quisesses andar por cá muitos mais anos - afinal, eras um amante da VIDA- mas sei que, apesar de curta para os nossos critérios, a tua passagem por aqui foi intensa e que, à semelhança de Neruda, não terias pejo em afirmar: "Confesso que vivi!" 

Pela parte que me toca, resta-me agradecer o privilégio de te ter conhecido, de teres sido meu amigo, de tantas conversas e momentos partilhados...a nossa cumplicidade, a forma como gostávamos genuinamente um do outro!

Já tenho dado por mim a pensar em que momento nos cruzámos e ficámos amigos...e não sei precisar o dia nem a hora: só sei que em outubro de 1998 já tu fazias parte do grupo de dizedores das muitas sessões de poesia promovidas no âmbito do meu trabalho, na Biblioteca. 

E que em setembro de 2020 não te fizeste rogado em participar no vídeo-recital "Liberdade sitiada, liberdade celebrada" realizado no âmbito da Rede Cultura 2027, dando-me (mais uma vez) a mão na tarefa de congregar pessoas em torno da poesia. 

Entre as duas fotos que ilustram este post (e fazem memória desses dois momentos) passaram-se 22 anos...em que tu estiveste sempre que possível: de mão na anca ou no joelho, de polegar e indicador unidos (um gesto que te era tão característico) ou de dedo apontado ao futuro...mas sempre com a tua voz poderosa e a tua forma peculiar e sentida de dizer as palavras dos outros: do "Cântico Negro" do Régio, ao "Pelo sonho é que vamos" do Sebastião da Gama, do "Adeus" do Eugénio ao "Até logo" do Borges Coelho, passando pelo incontornável Ary e o seu "Isto vai meus amigos, isto vai" (só para citar alguns).

Ainda a propósito de poesia, marcou-me para sempre a dedicatória que me fizeste aquando do lançamento do teu livro Apontamento à margem: disseste que eu tinha "voz de poesia"...e há lá elogio mais bonito que este, quando se tem (como nós temos) esta paixão pela arte da palavra escrita e dita?

Por falar em palavras, deste-me mais recentemente a honra de prefaciar o teu Face to Face...Book. Nele, elogiei-te o sentido de humor, a cultura geral, os trocadilhos com as palavras, a capacidade de expressar através dos teus escritos, quase diários, no FB, as inquietações, os pensamentos, as memórias, as histórias de tantos e tantas que te liam. E que saudades vamos todos sentir dessas leituras...

Defini-te ainda como "homem de afectos, emoções e solidariedade"...e essa era, realmente, a tua marca distintiva: não temeres expressar o que te ia no coração, na mente e na alma...sem rodeios nem adiamentos!

"Não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje!", sobretudo quando se trata de afetos, da vida das pessoas, do cuidado que devemos a quem gostamos. Foi assim que viveste (literalmente) até ao último dia, "dando de ti"...

Ninguém é perfeito (sabêmo-lo bem) e também terias os teus defeitos, as tuas falhas, os teus dias menos bons...mas não foram esses que mais marcaram a maioria das pessoas que se cruzaram no teu caminho!

Vamos, por certo, lembrar-te como homem de causas, solidário, trabalhador, afável, culto, afetuoso, mestre, amigo...

Vamos recordar-te como desportista do Stella Maris; a fazer canoagem por aí; a dizer poesia ou a invocá-la sempre que havia uma oportunidade; a tocar bombo no Cantar d'amigos ou a abrir o desfile de Carnaval; como dramaturgo, ator e encenador de teatro, na Universidade Sénior (e não só); como o radialista há mais tempo em antena na rádio local (e que privilégio foi fazer contigo o "Espaço Solidário" e partilhar também esse gosto comum pela rádio e pela tertúlia); a moderar encontros com escritores nas Feiras do Livro da AJP ou a apresentar os teus livros e os de alguns amigos; a tratar do burro Galileu; a discursar na Assembleia Municipal por ocasião do 25 de abril; a intervir política e socialmente sempre que a causa te era cara; a dar a cara pelas CERCI'S e pela igualdade na diferença; a acarinhar, sempre que possível, familiares, amigos, colegas...; a divertires-te, dançando ou gracejando, entre um e outro copo; a fazeres memória dos teus tempos de infância e juventude, da tua rua, dos teus pais e de tantos outros que já partiram...

Vamos sentir muito a tua falta, pessoal e coletivamente...acredita!

Como se pode ler na pagela que evoca a tua partida, "Aqueles que amamos nunca morrem...apenas partem antes de nós!"

Partiste e queremos que agora descanses em paz...até ao reencontro, vamos mitigando as saudades (que já sentimos) com as memórias felizes de tudo o que vivemos contigo! 

Gosto muito de ti, Rogério! Daqui até aí, um abracinho apertado e dois beijos repenicados, como gostávamos de dar...